quinta-feira, 5 de maio de 2011

Anos de chumbo

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O crescimento populacional de Fortaleza continua expressivo por conta do processo migratório. O contingente de migrantes se aglomerava nos subúrbios junto às comunidades locais mais pobres, com limitadas possibilidades de sobrevivência e ocupações precárias. Em 1960 a cidade contava com 450 mil habitantes.

Fortaleza absorvia as migrações que chegavam dos mais variados pontos do Interior, levas populacionais que fugiam da seca e se acomodavam na periferia da Capital, semeando algumas favelas que temos hoje. Entre as décadas de 50 e 60, a população cresceu 66%, chegando a 514.818 moradores.

Vista aérea do Centro de Fortaleza nos anos 60

O sistema de transporte público ainda era extremamente precário por conta da baixa taxa de renovação da frota, do crescimento populacional e, por consequência, da demanda de localidades cada vez mais numerosas e distantes. Em 1960 havia 403 ônibus circulando em 87 linhas.

Em 1967 foi introduzido em Fortaleza o sistema de ônibus elétricos. Apenas nove ônibus faziam parte da frota que circulava nas linhas da Parangaba e Bezerra de Menezes. A experiência, contudo, não se desenvolveu e os ônibus elétricos saíram de circulação em 1972.

As Praças José de Alencar e da Estação passaram a funcionar como os primeiros grandes terminais de ônibus da cidade. Essa transformação marcaria, no caso da Praça José de Alencar, o fim de um espaço privilegiado que o Centro de Fortaleza dispunha até então, uma vez que o intenso tráfego de ônibus maltratava o patrimônio histórico local – como o Teatro José de Alencar e a Igreja do Patrocínio –, desvalorizando imóveis a abrindo espaço para ocupação irregular da Praça.

Praça José de Alencar quando era o principal terminal de ônibus da cidade

Outro grave problema continuava sendo o abastecimento de água. Além do parco atendimento, limitado à área central e imediações, a água salobra levava os moradores, que não dispunham de recursos para construir cisternas, a recorrer às carroças d’água que percorriam os bairros, vendendo água de melhor qualidade.

A trecho da orla marítima hoje chamada de Praia do Meireles era, até o início da década de 1960, um local com algumas casas de veraneio, muitas casas de pescadores e vários estabelecimentos que exploravam o lenocínio e a prostituição. A construção da Avenida Beira Mar pelo prefeito Cordeiro Neto, no início dos anos 60, expulsaria os pescadores para o alto das dunas e para a Rua Manoel Jesuíno, na Varjota, e a zona de prostituição para a área do Farol do Mucuripe (Serviluz). A partir de então, a especulação imobiliária descobre a Beira Mar.

Praia dos Diários na segunda metade dos anos 60

Foi somente a partir da segunda metade dos anos sessenta que o litoral leste de Fortaleza, mais especificamente a Avenida Beira-Mar, iniciou um processo meteórico de valorização imobiliária que culminaria na sua completa ocupação com os modernos prédios que hoje desenham a silhueta da cidade desde a Praia de Iracema até o Mucuripe.

Na administração do general Murillo Borges, a Avenida Bezerra de Menezes passou por grande modificação, assumindo uma feição mais ampla e moderna, apesar da retirada das árvores que existiam na parte central da avenida, formando canteiros e alamedas que a dividiam em duas ao longo toda sua extensão.

Avenida Bezerra de Menezes logo após sua inauguração

“A inauguração teve a singularidade de congraçamento dos moradores e de todos que percorriam aquela avenida, unindo-se a um só, numa quilométrica mesa posta pelos moradores da avenida que promoveram um grande banquete, em que cada um expunha suas iguarias, guloseimas e acepipes dos mais variados tipos”. (Zenilo Almada)

Em 1º de abril de 1964 o Brasil acorda sob a ditadura militar implantada por um golpe conta o governo democrático de João Goulart. Segundo o pesquisador Nirez, “em Fortaleza casas são invadidas, pessoas são presas por qualquer suspeita, políticos são cassados e presos, bibliotecas são confiscadas, o policiamento nas ruas passa a ser feito pelo Exército, e outros desmandos”.

Colégio Militar em registro de 1960

A energia da Usina Hidrelétrica de Paulo Afonso só chegaria a Fortaleza em fevereiro de 1965. O pesquisador Nirez relata que o evento ocorreu “na Praça dos Libertadores, no Otávio Bonfim, com a presença do presidente da República, general Humberto de Alencar Castelo Branco. Desde 1912 a capital era servida pela luz e força da Light, companhia inglesa que explorou o bonde, ônibus, além da luz e força, sempre com precariedade. A empresa foi municipalizada, transformou-se em Serviluz, Conefor e finalmente Coelce”.

Em 1967, na administração José Walter Cavalcante, foi iniciada a construção da nova Praça do Ferreira, que agora seria maior, pois até então seu comprimento ia da Rua Pedro Borges até a Guilherme Rocha e agora iria até a antiga Rua Pará. O problema é que essa reforma descaracterizou completamente a Praça, elevando, em toda sua extensão, enormes estruturas de alvenaria e concreto como canteiros suspensos, que impediam o livre trânsito das pessoas e deixavam a Praça com uma aparência sombria.

Praça do Ferreira em 1969, após a reforma

“Nos anos de 1960, os estudantes universitários movimentavam o cotidiano da cidade com um evento de grande envergadura que culminava com significativa concentração de pessoas na Praça do Ferreira: a passeata dos bichos. Em meio às festividades e “exibição” dos recém-ingressos na universidade, inúmeros adereços eram acrescentados a fim de multiplicar os efeitos da impressão junto ao público: blocos de estudantes organizados por curso com a presença das rainhas, carros enfeitados para dar um tom humorístico, cartazes de protestos indicando uma apropriação dos festejos como espaço de reivindicação e projeção de utopias. As sátiras e músicas carnavalescas conferiam novas tonalidades às vias públicas, atraindo milhares de pessoas que buscavam lugar entre uma calçada e outra para apreciar o espetáculo proporcionado pelos estudantes”. (Vânia L. S. Lopes)

É possível que a reforma da Praça tenha se constituído num instrumento eficaz para pôr fim a estas mobilizações que faziam parte de uma experiência encarnada na força de uma tradição. A última passeata ocorreu em junho de 1968, ou seja, no período de radicalização do autoritarismo,ano em que entrou em vigor o AI-5.

O advento da televisão

Em 1960 foi descarregado no porto do Mucuripe o material da torre de televisão a ser instalada em Fortaleza. Uma noticia veiculada pelo jornal Correio do Ceará, pertencente ao mesmo grupo empresarial, informava que o material era procedente da Inglaterra e pesava 30 toneladas. Adiantava que a torre seria instalada sobre uma base de 90 metros de altura, que juntamente com a antena de 18 metros, perfazia um total de 108 metros de altura.

O indiozinho éra a principal característica na abertura diárias da programação da TV Ceará

A primeira estação de televisão do Estado, a TV Ceará Canal 2, entrou no ar em 24 de novembro de 1960. Nessa época, Fortaleza tinha cerca de 500 mil habitantes e apenas 200 televisores. Foi instalada no bairro Estância Castelo (atual Dionísio Torres), no local onde hoje funciona a holding do Grupo Edson Queiróz na Avenida Antonio Sales.

A televisão chegou à Capital do Ceará 10 anos depois da inauguração da primeira emissora do País - a TV Tupi Canal 3, que iniciou suas atividades no dia 18 de setembro de 1950, em São Paulo, constituindo-se na primeira estação de televisão da América do Sul.

Pelo menos nos primeiros anos, a televisão não teve grande impacto no cotidiano de Fortaleza, nem ocupou a mesma posição do rádio, porque o aparelho de TV era considerado um artigo de luxo. Somente a elite econômica tinha acesso porque o preço era muito alto, pouco menos que o valor de um carro. "O preço de um televisor era três vezes maior que o da mais sofisticada radiola da época... Além disso, não existia nenhuma indústria de componentes para os televisores no País, até mesmo válvulas eram importadas dos Estados Unidos. Pelo ano de 1965, um televisor portátil era vendido por aproximadamente 200 dólares", diz o professor baiano Sérgio Mattos.

Entrega dos prêmios aos vencedores de uma gincana do programa TV Juventude, que era apresentado aos sábados na TV Ceará Canal 2

Quando foi inaugurada em Fortaleza, eram poucos aparelhos espalhados pela cidade, fato que contribuiu para o surgimento de figuras que se tornaram muito comuns: os televizinhos, que formavam verdadeiras plateias em torno da TV.

Na Fortaleza dos anos sessenta as pessoas tinham o hábito de sentar na calçada, o rádio ligado. As rodas de cadeiras na calçada às vezes se desfaziam durante uma novela ou um programa, mas logo se recompunham.

A programação era ao vivo, gerada com talento local: cantores, atores, escritores e diretores, técnicos. O Diretor de Programação Péricles Leal veio do Rio trazendo uma programação mais ou menos nos moldes das TVs de São Paulo e do Rio de Janeiro: teatro de romance, videorama, contador de histórias e aos domingos, um show musical e mais os programas TV de mistério e TV de comédia.

Operador de câmara da TV Ceará no anos 60

O cearense Emiliano Queiroz, um dos pioneiros na TV, conta que todos eram polivalentes; que ele, em uma semana, fazia cinco ou seis personagens, escrevia os comerciais ao vivo, fazia contato com clientes, ensaiava e levava ao ar, realizava sorteios de carnês das lojas Romcy Magazine e era também apresentador.

Com o advento do vídeo-tape, mudou o modo de se fazer televisão no Brasil. O avanço tecnológico possibilitou a gravação dos programas, permitiu a correção dos erros e o estabelecimento de horários dos programas, mas, em compensação, decretou o fim da programação ao vivo.

6 comentários:

  1. Só para registrar que acabo de conhecer seu blog e estou extasiado, encantado com cada mínimo detalhe. Sua dedicação e amor por Fortaleza são louváveis. Sou nascido em outra cidade, mas moro aqui há anos, e sempre suspirei ao imaginar o quanto de história cada pequeno canto de nossa cidade guarda. Parabéns!

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  2. Este blog é realmente uma maravilha. Seja na forma como é apresentado ou no conteúdo das informações, tudo parece feito com muito esmero. Parabéns pelo excelente trabalho.

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  3. Um conteúdo riquissimo de nossa historia. Nossas emissoras de tv deveriam ter a obrigaçao de mostrar um material como esse.

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  4. Um conteúdo riquissimo de nossa historia. Nossas emissoras de tv deveriam ter a obrigaçao de mostrar um material como esse.

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