terça-feira, 21 de setembro de 2010

Crescimento, euforia e caos

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À medida que Fortaleza crescia em espaço físico e demográfico – eram 240.000 habitantes em 1952 – não havia por parte dos poderes públicos, planejamento para que a cidade e seus moradores acompanhassem o desenvolvimento.

Mesmo nas áreas consideradas nobres da cidade, não havia infraestrutura urbana adequada e todos os serviços (transporte, água, recolhimento de lixo) eram insuficientes. E na periferia não poderia ser melhor. Além da inexistência de serviços básicos, não havia farmácias, lojas ou mercados e nem telefone público. Até a década de 1950, se formaram as favelas Pirambu, Mucuripe, Cercado do Zé Padre, Lagamar, Morro do Ouro, Varjota, Meireles, Papoquinho e Estrada do Ferro. A população carente também ocupava o Morro do Moinho, o bairro do Seminário, do São João do Tauape, o do Alto da Balança e Cajazeiras.

Vista aérea de Fortaleza em 1956

A periferização da cidade na forma de núcleos de favelas é a mais contundente prova de que a «bela e moderna capital» não era suficiente para todos, ou não possuía condições de abrigar tantos cearenses.

Nessa época a Aldeota, antigo Outeiro, consolidava-se como um bairro tipicamente residencial, com ruas largas, belos casarões e sobrados. Os terrenos eram enormes, davam para construir a casa, e sobrava espaço para o jardim, o quintal, o pomar. O bairro foi formado a partir da Avenida Santos Dumont. Mas passou a representar o bairro predileto da elite a partir da década de 1950.

Registro parcial da Praça do Ferreira durante os anos 50

Os bondes elétricos já haviam deixado de circular em 1947 devido aos altos custos e à deficiência do serviço à população. Os trilhos foram arrancados e vendidos para sucatas, enquanto os veículos eram abandonados e se deterioravam. O ônibus coletivo se tornou, em 1950, o principal meio de transporte do fortalezense, ainda que em funcionamento precário, pois eram mal conservados e poucos para atender a população. Nessa mesma época, também são instalados os primeiros sinais luminosos no centro da cidade, a prefeitura compra um gerador de 5.000 kW para reforçar a iluminação.

O fornecimento de água também era insuficiente. Basta citar o fato que de um total de 48.894 prédios urbanos, em 1959, apenas 9.321 dispunham de água canalizada, restando 39.573 dependentes do abastecimento domiciliar.

Nesse período estava sendo construído o açude de Orós, considerado o maior do mundo.

Vista aérea do Parque da Liberdade em 1954

A seca era mais um agravante que, intermitentemente, dificultava a vida na cidade. Mesmo sem muitos vínculos diretos com a agricultura, Fortaleza sentia os dramáticos efeitos das secas, uma vez que se tornava o principal destino dos sertanejos expulsos da zona rural. A cidade os acolhia muito mal, sem a estrutura necessária para recebê-los. Foi assim durante os dois grandes flagelos de 1951 e 1958. Em 1955, 2.773 cearenses haviam emigrado, dos quais, apenas 372 voltaram ao interior do Estado. E, nos primeiros meses de 1956, 1.559 emigrantes partiram por via marítima, 249 para o Sul e o restante para o Norte.

Apesar disso, a década de 50 registra uma redução no fluxo migratório para Fortaleza, que foi politicamente desviado pela migração inter-regional. Os migrantes fizeram parte de 17% da população total residente, sobretudo corresponderam a metade do incremento populacional do período 1940/50 e um quarto da População Economicamente Ativa de 1950.

"Apesar de ser uma cidade litorânea, Fortaleza nasceu e se desenvolveu de costas para o mar, pois tinha seus interesses voltados para o sertão. O banho de mar só surgiu no final da década de 1950, através dos clubes construídos na praia, como o Náutico, e o Ideal".

Foto dos anos 50 na qual temos, em primeiro plano, a Volta da Jurema e, à direira, toda a extensão da Beira-Mar

O povo dançava ao som do momento: o baião de Luiz Gonzaga. Em Fortaleza a festa de adultos era tradicional no Clube Maguary e os meninos se divertiam no Parque Americano, o primeiro parque de diversões permanente do estado. A diversão das elites baseava-se nas festas dos clubes sociais e cinemas. Depois de assistir aos filmes, os rapazes tinham como opção os cafés da Praça do Ferreira, nos quais, era proibida a entrada de mulheres.

Registro da inauguração da sede do Clube Náutico Atlético Cearense nos anos 50

"Só restava, para encompridar a hora de recolher-se à casa, o recurso dos longos papos às mesas de cafés, que os havia, as dezenas, à roda e nas proximidades da Praça do Ferreira. Nesses cafés de frequência variada, lá estavam os pequenos rádio-receptores, todos em mogno, geralmente com as caixas em forma ogival, em cantoeiras no geral de mármore ao alcance apenas da sintonia do proprietário, na transmissão de vozes, então máximo, de Vicente Celestino, Sílvio Vieira, Augusto Calheiros, Alberto Perroni, Fomendi: valsas, canções, cançonetas, foxes bem marcadas, sambas de Noel e choros de Pixinguinha e Benedito Lacerda". (Eduardo Campos)

A seleção de futebol ganhou em 1958 a sua primeira Copa do Mundo. Começavam a ser fabricados no país os primeiros automóveis. Inicialmente o Jeep Willys em 1952, o Fusca em 1953 e depois a Rural-Willys e Kombi em 1957. Parecia que tudo estava indo muito bem.

Rua Senador Pompeu que, nos anos 50, já estava devidamente pavimentada

A frota de carros particulares em Fortaleza começava a aumentar e, em 1951, foram instalados os primeiros sinais luminosos para controlar o tráfego no centro da cidade. Mas as bicicletas eram muito utilizadas. Boa parte delas eram importadas. Uma das mais famosas era da marca chamada Sears Roebuck. Por isso o desfile de ciclista era fundamental nas paradas de 7 de Setembro.

A autoestima dos brasileiros atingia níveis nunca antes conhecidos nos anos 50. Getúlio Vargas já havia instalado importantes indústrias de base (siderúrgicas) e agora o Presidente Juscelino Kubitschek estava construindo uma nova capital para o país. Nesta época a capital do Brasil ainda era a cidade do Rio de Janeiro.

Ainda não havia televisão no Ceará e o rádio tinha se transformado, desde a década passada, na principal distração em casa. Passava novelas, noticiários, músicas e programas humorísticos. A principal rádio do Ceará continuava sendo a PRE-9.

Foto dos anos 50, onde vemos o terreno no qual seria construída a Praça da Imprensa

Ainda faltava, contudo, à cidade, um elemento objetivo capaz de congregar o desejo de crescimento econômico com desenvolvimento humano, aliando a sistematização do conhecimento acumulado e disseminando o saber científico e técnico. Era o momento de ampliar as restritas fronteiras da educação superior no Ceará.

A universidade nasceu como resultado de um amplo movimento de opinião pública que teve início no ano de 1949. O principal interlocutor deste movimento foi Antônio Martins Filho, intelectual que veio a se tornar o primeiro reitor da então recém-criada Universidade do Ceará. Foi criada por Lei de dezembro de 1954 e instalada numa sessão no dia 25 de junho de 1955. Sua implantação deveu-se da união de várias instituições de ensino superior então existentes na cidade de Fortaleza: Escola de Agronomia do Ceará, Faculdade de Direito do Ceará, Faculdade de Medicina do Ceará e Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará.

A década do rádio cearense

Quando do seu início o rádio, na falta de uma linguagem própria, utilizava-se da literatura mundial e fazia encenação de clássicos de renome – instalava-se no novo meio o radioteatro – percussor da radionovela, gênero que se desenvolve e atinge um crescimento extraordinário em todo país devido à grande audiência alcançada. Gêneros, que foram mais significativos nas rádios que os adotaram como marca.

Famoso prédio da Rádio Uirapuru ainda existente na esquina das ruas Clarindo de Queiroz com General Sampaio, onde, totalmente modificado, funciona a sede do Diretório Central dos Estudantes da UFC

Foi o caso da Rádio Uirapuru, inaugurada em 1956, tinha como principal proposta manter uma programação moderna e diversificada, voltada para a informação e prestação de serviços. A próxima emissora seria a Rádio Verdes Mares, fundada em 1957 e pertencente ao grupo Diários Associados dava mais ênfase à informação, mas permeado por discurso político. A rádio Dragão do Mar foi a última da “Década de Ouro”, fundada em 1958, também começou com objetivos políticos.

Essa época de ouro do rádio cearense também é caracterizada pelo grande número de emissoras que se instalaram em Fortaleza e no Estado durante toda a década, cada uma com seus estilos e peculiaridades. Mas, o mesmo período também é marcado por uma série de improvisações e de experimentação na área da programação que ainda buscava sua estrutura definitiva.

Radialista Aderson Braz entrevista Juscelino Kubistchek juntamente com o deputado Paulo Sarasate para inauguração do Açude Orós

Sempre em busca de melhores condições para vencer a concorrência que se levantava e atender melhor ao público, a Ceará Rádio Clube se mudou para o Edifício Pajeú, na Rua Sena Madureira, dispondo de um auditório com capacidade para 500 pessoas, muitas vezes insuficiente para receber multidões que queriam aplaudir os grandes cartazes.

Mas foi, principalmente, o advento da radionovela cearense que marcou o início da concorrência entre as emissoras locais, em 1948, com a inauguração da Rádio Iracema de Fortaleza, a segunda emissora cearense depois de 14 anos de Pre-9. Embora as emissoras cearenses mantivessem um cast exclusivo, as novelas de maior sucesso eram escritas fora do Estado, vinham de outras rádios do país para serem montadas em Fortaleza.

Sede da Rádio Iracema (prédio de colunas) que, nos anos 50, situava-se na Praça José de Alencar

Dessa forma, a década de 1950 se constituiu na “Era de Ouro” do rádio local, tendo as radionovelas grande influência no crescimento do interesse pelo veículo e, consequentemente, o aumento do público ouvinte.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O despertar da metrópole

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Fortaleza chega aos anos 40 com uma população de 180.000 habitantes. Durante a década a cidade registrou uma taxa de crescimento demográfico de 50%, marca superior a de Salvador.

Nesse período evidencia-se cada vez mais a expansão urbana do eixo sudoeste, como também da área loteada no sentido leste. Esta ocupação intensiva para o sudoeste se deve à localização da zona industrial, que funciona como um polo de atração para um grande contingente de migrantes do interior do Estado, gerando como consequência, o surgimento das favelas de Fortaleza, além do crescimento de núcleos antigos, como a favela do Pirambu.

Vista aérea parcial da cidade, onde podemos ver, além da região central com seus prédios, a Aldeota pouco habitada e, na parte superior da foto, a praia do futuro

A estrutura da localização residencial e industrial em Fortaleza fez deslocar para oeste as indústrias, pois além da relação distância/moradia/trabalho, a via férrea - e as próprias fábricas - desvalorizavam os terrenos do entorno, “permitindo-se” o acesso habitacional aos trabalhadores e classe de baixa renda. As elites, por sua vez, começavam a se transferir para a zona leste da cidade, mais precisamente a Aldeota.

Ao mesmo tempo, era crescente o interesse das classes abastadas pelos espaços à beira-mar, onde se edificavam casas de luxo e mansões a partir da Praia do Peixe, atual Iracema. Essa ocupação sistemática seria responsável, nas décadas seguintes, pela transformação radical do litoral leste da cidade da cidade, até então ocupada por inúmeras colônias de pescadores.

Foto do litoral leste da cidade, onde futuramente seria construída a Avenida Beira-Mar

Os bairros em Fortaleza nunca foram bem definidos, não se sabendo onde iniciam nem até onde vão. Além desse fato, vários bairros mudavam de nome, o que ajudava a confundir mais ainda.

Segundo o pesquisador Marciano Lopes, "a Parangaba era Arronches, Pirocaia era o nome do atual Montese, Carlito Pamplona era Brasil Oiticica, Açude João Lopes era como se chamava o atual Morro do Ouro. São Gerardo era Alagadiço, Antônio Bezerra era Barro Vermelho, a Praia de Iracema era Praia do Peixe. Aldeota era Outeiro e, também Aldeiota. Dionísio Torres era Estância, Castelão era Mata Galinha e Parquelândia ocupa a área que antes era do Campo do Pio e do Coqueirinho. Alto da Balança era o nome original da atual Aerolândia e o Lagamar agora é Tancredo Neves. Caso peculiar: o antigo Otávio Bonfim teve o nome trocado para Farias Brito, porém ninguém aceitou a mudança e o bairro continua a ser conhecido como Otávio Bonfim. Prainha é o nome correto da área antiga onde agora está o Centro Dragão do Mar e que o povo, por falta de informação chama Praia de Iracema. Incorreto: a Praia de Iracema é mais adiante. A parte alta daquele pequeno bairro, onde está a Praça Cristo Redentor era o Outeiro da Prainha. Cercado do Zé Padre é aquele conglomerado, arremedo de favela, entre as avenidas Duque de Caxias e Bezerra de Menezes, logo após a Praça São Sebastião. Parque Americano era uma pequena área entre a Rua Padre Valdevino e o bairro da Piedade. O nome surgiu devido a existência ali, de um parque de diversões, instalado pelo dono do famoso Bar Americano. Marcou época mas hoje só existe na memória dos mais velhos".

Prédio da Casa Plácido, do comerciante Plácido de Carvalho, era loja de produtos importados situada na Praça do Ferreira

De acordo com o testemunho de Marciano Lopes, "as lojas mais chiques estavam na Praça do Ferreira, como a Sloper, uma rede de lojas chiquérrimas nos moldes das lojas de Paris. Vendia vestidos, chapéus, sapatos, bijuterias finíssimas... Todo o comércio era no Centro. Não se encontrava nenhuma agência bancária fora dele, nem lojas. Nos bairros tinham um pequeno armarinho para abastecer costureiras de botão de fita, de elástico... E tinham as padarias e as bodegas, mas as mercearias de luxo eram no Centro. As famílias mandavam o chofer levar a lista aquelas mercearias chiques, a Joana d’Arc, Casa Tupi, Miscelânea Casa Santa Clara, Casa Tabajara. Elas despachavam com artigos finos, vinhos franceses e alemães e mandava entregar em casa".

São também desse período as primeiras tentativas de induzir a verticalização da área comercial. A cidade então já conhecia, desde a década de 30, as novas técnicas construtivas. O concreto armado começava a sobrepor-se às paredes de alvenaria e os engenheiros dominavam o padrão arquitetônico e construtivo. Foi no centro, no entanto, que se verificou com mais intensidade a materialização desse processo. São exemplos das novas técnicas os edifícios Oriente e Atlântico na esquina da Rua Major Facundo com Castro Silva. Estas edificações da área central persistem sendo uma expressão da arquitetura moderna.

Imagem panorâmica do centro de Fortaleza no início dos anos 40

As primeiras obras de destaque da verticalização das construções ficaram reservadas, em geral, para o uso comercial no centro da cidade. Essa tendência podia ser notada em prédios como os Correios e Telégrafos em 1934 (com 3 pavimentos), Edifício Parente em 1936 (com 5 pavimentos), Edifício Carneiro em 1938 (com 5 pavimentos), Cine Diogo em 1940 (com 9 pavimentos), Edifício Prudência em 1947 (com 7 pavimentos).

No âmbito cultural, os anos 40 são uma espécie de divisor de águas entre a Fortaleza provinciana das décadas anteriores e a grande metrópole na qual a cidade se tornaria.

Praça do Ferreira mostrando em destaque a Coluna da Hora e, parcialmente, o Cine São Luiz ainda em construção

Em 1942, os visitantes Domingos Laurito e Nelson Silveira Martins, registraram em Terra do Brasil suas impressões sobre a cidade: "Fortaleza dá uma impressão magnífica. Vista no conjunto é a mais linda cidade do norte. É uma cidade nova, parecendo que acabou de ser construída. Em pleno centro ergue-se a Coluna da Hora, na Praça do Ferreira, nas imediações da qual estão os principais estabelecimentos comerciais, cafés, bares, os cinemas Moderno, Majestic e Politeama em em construção o lindíssimo São Luiz. Em todo o Norte, depois do Rio, não existem cinemas iguais aos de Fortaleza".

A inauguração das ondas curtas acelerou sobremaneira o desenvolvimento do rádio, causando naturalmente um impacto social no contexto histórico em que se expandiu.

No dia 29 de agosto de 1941, a Ceará Rádio Clube iniciou às transmissões em ondas curtas e inaugurou seus novos estúdios. A emissora assumiria, a partir de então, a posição de veículo de comunicação de massa, tornando-se referência cultural na cidade durante anos.

Sede da antiga Ceará Rádio Clube na avenida João Pessoa, no bairro Damas

Segundo Eduardo Campos, “o entretenimento esteve presente na cerimônia de inauguração das novas instalações da Ceará Rádio Clube, naquele ano de 1941. A programação musical foi iniciada pelo maestro italiano, recém-contratado pela PRE-9, Hercules Vareto. Na sequência, no auditório da emissora, sucederam-se várias apresentações de artistas locais e nacionais, destacando-se o grupo “4 Azes e 1 Coringa” e “o Cantor das Multidões”, Orlando Silva, a grande atração do evento. “A cidade parou para receber a grande voz romântica do cancioneiro nacional, cantor que disputava as preferências do público juntamente com Francisco Alves, ‘o rei da voz’, que antes visitara o Ceará”.

Eram os tempos da Segunda Guerra Mundial e, Getulio Vargas, depois de enormes pressões para assumir posição junto aos aliados, declarou guerra à Alemanha em 1942. Não se via há muito tempo uma euforia tão grande no povo do Ceará em participar de uma guerra. A população estava revoltada com a covardia dos ataques aos navios brasileiros. Os estudantes da Faculdade de Direito organizavam passeatas que carreavam multidões. Em 1943 um novo torpedeamento de navios levou os estudantes à loucura. Saíram em passeata e queimaram as Lojas Pernambucanas de propriedade de alemães e depois a loja De Francesco de propriedade de italianos.

Parque da Liberdade com vista para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus

Fortaleza passou por blecautes e pelo medo de ser atacada por submarinos alemães. O governo brasileiro cedeu bases no Nordeste para operações do Exército e a Aeronáutica Norte-Americana. Uma destas bases foi instalada em Fortaleza no atual bairro do Pici. Sob uma forte propaganda governamental de migração, cerca de 30 mil cearenses tornaram-se Soldados da Borracha, produzindo esse produto na Amazônia para abastecer os exércitos aliados.

Na década de 1940 começou a construção do porto na enseada do Mucuripe. Para isto, foi necessária a construção de vários enrocamentos que provocaram alterações em parte do litoral cearense, surgindo aí à praia Mansa. Em 25 de dezembro de 1947, foi inaugurado o Porto do Mucuripe, passando a ser feito ali todo o serviço de embarque e desembarque de passageiros e o transporte de cargas nacionais, antes realizado na Ponte Metálica.

Porto de Fortaleza nos anos 40, mais conhecido como Ponte Metálica

Fortaleza abandonaria de vez os últimos costumes da sua “fase francesa” e passaria a ver nos Estados Unidos o novo modelo a ser seguido. Sai o champanhe e entra a coca-cola. A fama do refrigerante era tanta que as moças que namoravam os soldados e oficiais americanos eram apelidadas de "coca-colas". Estima-se que entre os anos de 1943 e 1946, cerca de 50 mil americanos passaram por Fortaleza.

“Os anos 40 marcam uma mudança na orientação dos modelos estrangeiros entre nós. Os padrões Europeus vão ceder lugar aos valores americanos, transmitidos pela publicidade, cinema e pelos livros em língua inglesa que começam a superar em número as publicações de origem francesa (...) Os padrões de orientação vigentes são, portanto, os do mundo do star system e do american broadcasting. No rádio, este é o período em que a música americana se expande, e se consolida uma forma de tocar “boa música”, a orquestral, que se constitui tendo por modelo os conjuntos americanos”. (Renato Ortiz)

Aventura e coragem

Quatro pescadores cearenses se lançaram ao mar para uma viagem que entrou para a história. Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), que a bordo de uma jangada singraram os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem bússola ou carta náutica.

Partiram da antiga Praia do Peixe (hoje, Iracema), em 14 de setembro de 1941, e chegaram ao seu destino dois meses depois.

Antiga Praia do Peixe onde começou a jornada dos jangadeiros cearenses (foto de 1946)

Os jangadeiros queriam chamar a atenção do País e do governo para o estado de abandono em que viviam os 35 mil pescadores do Ceará. Morando em toscas palhoças, nem do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos eles recebiam ajuda. O presidente da República precisava saber daquilo. Ficou sabendo.

Em 16 de novembro, Getulio Vargas recebeu os quatro jangadeiros, que pouco antes haviam sido acolhidos apoteoticamente pela população carioca e conduzidos em carro aberto até o Palácio do Catete.

Jacaré, Tatá, Mané Preto e Mestre Jerônimo em foto de 1942

O retorno a Fortaleza, em 1º de dezembro, após sete horas de voo, foi uma apoteose ainda maior que a do Rio. Um cortejo de 150 automóveis seguiu os heróis da terra do aeródromo do Alto da Balança ao Jangada Clube, na Praia de Iracema, onde foram recebidos, entre outros, pelo interventor Menezes Pimentel.

A odisseia da São Pedro, contudo, estava condenada a entrar para a história do cinema americano. Orson Welles tomou conhecimento da proeza de Jacaré & Cia, e decidiu realizar, com base nessa história, o segundo episódio brasileiro de It's All True, o filme pan-americano que o governo Roosevelt há pouco lhe encomendara.

O líder dos jangadeiros Manoel Olímpio Meira (Jacaré)

Dois meses mais tarde, Jacaré e seus três companheiros foram levados de avião até o Rio. Rodariam no aeroporto a despedida do Rio e reconstituiriam, numa praia da Barra da Tijuca, a triunfal chegada da jangada São Pedro à Baía de Guanabara. Várias tomadas da chegada ao Rio chegaram a ser feitas, no dia 19, mas uma manobra infeliz da lancha que rebocava a jangada a teria virado, jogando ao mar agitado os seus quatro tripulantes. Três se salvaram. O corpo de Jacaré desapareceu e nunca foi encontrado.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A distinção Leste-Oeste

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A década de 30 corresponde ao início de uma fase dinamizadora da economia, calcada na industrialização do País. Esse período é marcado pelo crescimento da população urbana, com diminuição do contingente rural. Com o aumento de pessoas morando nas cidades, problemas como a falta de moradia, a ausência de infraestrutura e a precariedade dos equipamentos e serviços urbanos afligiam grande parte da população. Durante o governo de Raimundo Girão, o urbanista Nestor de Figueiredo chegou a projetar a cidade compreendida em zoneamentos. No entanto, o projeto não passou pelo crivo dos governantes da época.

Vista aérea da cidade no final dos anos 30, quando da demolição da antiga Igreja da Sé

Após a Revolução de 30, o Ceará passou a ser governado por interventores do Governo Federal. Ascenderam duas organizações políticas que dominaram o cenário estadual: a Legião Cearense do Trabalho, com nítida influência fascista, e a Liga Eleitoral Católica, fortemente religiosa, representante da elite tradicional e de grande apelo popular. Eram os tempos da revolução tenentista e da chegada de Getulio Vargas ao poder.

O governador do Ceará, Marcos Peixoto, informado de que os tenentes tinham tomado os governos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais se preparava para o combate. Mandou montar guarda nas principais estradas de Fortaleza. Triplicou o policiamento no Palácio da Luz (a sede do governo). Instalou várias metralhadoras na Praça General Tibúrcio. Mandou fechar o tráfego na Rua do Rosário e também na Rua Sena Madureira.

Rua Floriano Peixoto na esquina com Rua São Paulo, com ângulo de visão na direção da Praça do Ferreira. (Foto de 1935)

O ritmo de introdução das novas tecnologias em todas as atividades de Fortaleza mudou a paisagem da cidade em poucos anos, o que impressionava cada vez mais a população. A edificação do Excelsior Hotel (primeiro arranha-céu da cidade) em 1931, a primeira transmissão radiofônica em 1934, instalação da iluminação pública elétrica entre 1934 e 1935, inauguração da rede de telefonia automática em 1938.

Outros equipamentos também foram construídos: em 1930 a Estrada de concreto Fortaleza-Parangaba, atual Av. João Pessoa, construída pelo IFOCS (hoje DNOCS); o aeroporto para hidroaviões, na Barra do Ceará; e a empresa construtora “Edificadora do Norte”. Depois vieram o Campo de Aviação, no Alto da Balança, em 1931; o Mercado Central em 1932; e o ramal ferroviário Fortaleza-Mucuripe em 1933. Já a Praça dos Voluntários (Centro) data de 1938.

Banco Frota & Gentil, na esquina das ruas Floriano Peixoto e Senador Alencar

As primeiras instituições bancárias, criadas por grandes comerciantes e proprietários de terra, também surgem nesse período. Três dos primeiros cinco bancos estão assim associados ao comércio, e indiretamente à agricultura: o Banco Frota Gentil, pertencente a antigos donos de imóveis urbanos em Fortaleza; o Banco União S/A, de quatro proprietários, sendo um deles dono de terra urbana; e o Banco dos Importadores, também de proprietário de terras.

O núcleo comercial e social da cidade continuava girando em torno da Praça do Ferreira. Em 1932, foi demolido o coreto que ficava no centro da praça. Em 1933 o prefeito Raimundo Girão mandou construir no seu lugar a Coluna da Hora, com uma fonte dos desejos. Ao longo da praça foram colocados bancos de madeira sustentados por ferro fundido. O local que já era o principal ponto de encontro dos fortalezenses passou também a ser palco de festividades como desfiles de carnaval e, posteriormente manifestações de protestos da população. O chamado "coração da cidade" era o polo difusor de todas as formas de expressão popular em Fortaleza.

Multidão concentrada na Praça do Ferreira aguardando o desfile de blocos de carnaval

O sertão sofreu mais uma estiagem em 1932, e o governo estadual não pôde dispor mais da Amazônia como refúgio para os flagelados. Diante disso, foram criados os currais do governo ou, sem eufemismos, campos de concentração para os retirantes.

A fim de prevenir a "afluência tumultuária" de retirantes famintos a Fortaleza, cinco campos de concentração localizavam-se nas proximidades das principais vias de acesso à capital, atraindo os agricultores que perdiam suas colheitas e se viam à mercê da caridade pública ou privada. Dois campos menores situavam-se em locais estratégicos de Fortaleza, conectados às estações de trem que traziam os famintos, impedindo que eles circulassem livremente pelos espaços da cidade. Os campos, portanto, pretendiam impedir a mobilidade física e política dos retirantes através da concessão de rações diárias e de assistência médica.

Theatro José de Alencar em registro de 1931

Em consequência dessa realidade, a década de 1930 proporciona também o surgimento das favelas em Fortaleza. Antes disso, os subúrbios de Alto Alegre, de Barro Vermelho e, sobretudo, do Arraial Moura Brasil eram considerados pela imprensa e pela polícia os mais perigosos da cidade.

"No Mucuripe, a favela surgiu em 1933 (...) iniciando a incorporação de loteamentos periféricos nessas áreas. A favela surgiu como alternativa da classe trabalhadora, espoliada, desprovida de um pedaço de chão, relegada às periferias mais distantes e/ou as áreas de risco. Nessas áreas, os equipamentos de consumo coletivo, bem como os serviços, se mostram mais reduzidos, tornando ainda mais difíceis as condições dessa população. Esse é o modo como a Cidade vem sendo produzida, ou seja, extremamente segregada".

Litoral leste da cidade, onde seria construída a Avenida Beira Mar (foto dos anos 30 com vista a partir do Meireles)

As próprias elites haviam se deslocado para oeste, no Jacarecanga, onde proliferam mansões e palacetes e fazendo daquele espaço o primeiro bairro elegante de Fortaleza. Mas devido a posterior localização industrial, valorização fundiária e imobiliária, essas mesmas elites, a partir dos anos 1930, transferiram-se para o Benfica ou “Gentilândia”, pois a família Gentil, na década de 20 havia começado a construção de casas formando uma espécie de vila, tendo necessariamente que abrir ruas. Depois mudaram-se para a Praia de Iracema e para a Aldeota.

Os espaços litorâneos se valorizaram como lugares de lazer e habitação das classes abastadas. Em Fortaleza, esse interesse das elites pelo litoral marca o início de uma disputa urbana por espaços antes ocupados por uma classe de baixo poder aquisitivo.

Visão da rua Guilherme Rocha com destaque para o recém inaugurado Excelsior Hotel, reinando único como o maior edifício da cidade

Com a saída das classes mais abastadas para as áreas mais distantes do centro, acontecia a valorização de terras e a chegada de novas demandas sociais, que passavam a instalar prédios comerciais, escritórios e finalmente, prédios residenciais. Foi na década de 1930 que a verticalização passou a atender a fins residenciais.

Foi no centro da Cidade que surgiram os primeiros indícios do que seria a verticalização em Fortaleza. A verticalização, em seu primeiro momento, ou seja, a partir de 1930, estava ligada aos serviços como, por exemplo, o hotel Excelsior, o Edifício J.Lopes, o Lord, o Cine Diogo e depois o Cine São Luiz, o San Pedro, o Savannah e o prédio do INPS.

Santa Casa de Misericódia e vista parcial do Passeio Público em 1932

Na observação de Paulo Linhares, "a partir dos anos 30, o funcional e o social passam a se distinguir em Fortaleza, fortemente e de maneira precoce. Sem dúvida, a cidade se organiza em torno de dois polos: ao leste, a cidade da nova elite e, ao oeste, a cidade industrial e trabalhadora. Com o castelo do Plácido, obra pioneira de residência de alto luxo da cidade, construída na Aldeota (de estilo duvidoso, como a maioria das construções da nova burguesia urbana), a alta burguesia passaria a construir em direção ao leste. Bem longe do centro, das fábricas e dos pobres, criando um novo espaço de diferenciação social, tentando marcar o seu prestigio e aprendendo tropegamente uma certa arte de viver".

Amelia

Fortaleza recebeu em 1937, a visita da piloto norte-americana, Amelia Earhart, cuja passagem entre nós proporcionou alguns dos melhores registros fotográficos da cidade nos anos 30.

Ambiciosa e destemida, Amelia foi a primeira mulher a cruzar o oceano Atlântico em voo solo, em 1932, façanha até então conseguida apenas por Charles Lindbergh, em 1927. Nessa aventura, a solitária aviadora quebrou também o recorde de velocidade para voo transatlântico, estabelecendo-o em 14 horas e 56 minutos.

A garota nascida em Kansas e que já havia trabalhado como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial, lançou-se em mais um desafio: queria ser a primeira mulher a completar uma viagem aérea em torno do globo terrestre.

Vista aérea de Fortaleza em 1937. Podemos ver, ao centro, a antiga Igreja da Sé e abaixo um trecho da zona portuária

Poucas semanas depois de sua passagem por Fortaleza, no dia 2 de Julho de 1937, Amelia Earhart descolou para aquela que seria a sua segunda tentativa de dar a volta ao mundo em avião. Partindo de Oakland, a bordo de um Lockheed 10E Electra e acompanhada do navegador Fred Noonan, Amelia fez escalas - para mencionar apenas as principais – em Miami, Caraíbas, Brasil, Senegal, Sudão e Etiópia, Índia, Birmânia, Tailândia, Indonésia, Austrália, Nova Guiné. Daqui, descolaria em direção à ilha de Howland, no Pacífico. Nunca chegou.

Foto do mesmo ano de 1937, na qual percebemos claramente o avanço do mar sobre o a Praia de Iracema

O seu desaparecimento sobre o Pacífico, muito provavelmente devido a más condições atmosféricas e comunicações deficientes, deu origem às teorias e especulações mais imaginativas. Uma delas referia à época que esta viagem de Amelia seria uma acção de espionagem sobre os japoneses a pedido do então presidente Franklin Roosevelt. Outra teoria dizia que o avião se despenhara numa ilha do arquipélago das Marianas, Saipan, então sob ocupação japonesa, e que ambos teriam sido capturados e executados. E uma outra, mais delirante ainda, refere que Amelia teria sobrevivido, regressado aos EUA e assumido uma nova identidade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os intensos anos 20

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A Fortaleza dos anos 20 progredia a passos largos. De acordo com censo de 1920, sua população é de 78.000 habitantes. As ruas ainda eram iluminadas com gás carbônico, mas as casas já tinham energia elétrica. Desde 1913, o transporte na cidade era feito por bondes elétricos, que substituíram os bondes puxados a burros. O serviço era administrado por uma empresa canadense. Em 1926 começou a ser instalada a água encanada.

Postal colorizado dos anos 20, na qual o observador, situado num canto da Praça do Ferreira, está olhando para a Rua Guilherme Rocha no sentido da Praça José de Alencar

As indústrias floresciam. Fábrica de tecidos progresso, Fábrica Siqueira Gurgel de óleo e sabão, cigarros, calçados, curtumes, bebidas. Mas a cidade já demandava um porto de maior envergadura para carga e descarga de mercadorias.

No comentário de Raimundo Girão, “as obras federais, contratadas com o objetivo de resolver o problema das secas, em 1920, atraíram para Fortaleza um clima de novidades, de feição algo pinturesca. Viu-se, duma hora para outra, a gente prata-de-casa em mistura com dolicocéfalos louros e pretos barbadianos, americanos, ingleses que, arrotando fama de técnicos, vinham fracassar nos serviços de construção do porto do Mucuripe”.

Vista Panorâmica de Fortaleza no final dos anos 20, na qual vemos, em destaque, a Praça Marquês de Herval, hoje Praça José de Alencar

A praça Marquês de Herval (José de Alencar) começava a rivalizar com a Praça do Ferreira em importância, em virtude dos novos pontos comerciais que ali se instalaram. Em seu favor, a Marquês de Herval contava ainda com o Theatro José de Alencar, a Escola Aprendizes Artífices, a Igreja do Patrocínio e a movimentada Fênix Caixeiral. Em 1º de maio de 1929 foi erguida no centro da praça uma estátua de José de Alencar, cujo centenário de nascimento ocorria naquela data. Anos depois o nome Marquês do Herval foi definitivamente substituído e a praça passou a adotar o nome do grande escritor cearense.

O comércio se desenvolvia bem mais que a indústria. Só o algodão, durante a safra, movimentava uma imensidão de comboieiros, freteiros, lojistas e donos de mercadorias que fervilhavam pelas ruas da cidade. As trocas comerciais eram sempre feitas com as cidades do interior. Além de Aracati, Icó e Sobral, agora se destacavam as cidades de Baturité, Quixadá e Juazeiro do Norte. Os caixeiros (como eram chamados os funcionários do comércio da época) tinham uma organização sólida e poderosa chamada Fênix Caixeiral.

Cruzamento das ruas Barão do Rio Branco e Guilherme Rocha, com a Praça do Ferreira e o Palacete Ceará ao fundo. (Registro de 1925 clolorizado à mão)

Os governantes e a elite local continuavam com a mesma mentalidade artificialmente afrancesada. Começava que muitas casas comerciais eram administradas por estrangeiros franceses como a famosa casa Boris Frères, filial da casa francesa de mesmo nome. Tinha também Benoit Levy & Dreyfuss, Levy Fréres, Reishofer Frère, Clement Levy e Felix Liabastres, todas eram casas de comércio de propriedade de franceses. Até as reformas na cidade e os prédios públicos ainda inspiravam-se nos franceses. O Mercado de Ferro, tido como o mais belo e confortável da América do sul, foi projetado e construído na França.

A Praça do Ferreira estava sendo reformada, ganharia uma nova iluminação à luz elétrica. A Praça Marquês do Herval (atual José de Alencar), toda ajardinada e enfeitada com colunas de mármore vindas de Portugal, mas ao gosto francês, era passeio obrigatório para grande número de famílias e as suas crianças.

Rua Major Facundo em 1928, com ângulo de visão na direção do Passeio Público

É nesse período que Fortaleza começa a se expandir rumo ao leste, para a Aldeota e para o Meireles. Na Aldeota começam a surgir residências grandes, modernas e em lotes maiores que abrigavam as famílias mais abastadas. No início, a Aldeota acompanhava a Avenida Santos Dumont e estendia-se até onde hoje fica a Avenida Barão de Studart - ponto onde final da linha do bonde. No Meireles é que seriam erguidas mais tarde as sedes dos clubes sociais da alta sociedade, como o Náutico, o Clube Ideal, Clube dos Diários, entre outros.

Agora, disponibilizamos um vídeo realmente raro, retratando cenas da Fortaleza dos anos 20. É possível que a fita original fosse bem mais longa e apresentasse várias outras cenas urbanas de época. Além disso, na tentativa de recuperar o material já bastante danificado, o filme teve ainda vários metros perdidos definitivamente, durante o processo de cópia na velocidade adequada para receber gravação sonora. É obvio que a qualidade deixa muito a desejar, mas vale a pena conferir.

video
O filme foi produzido durante as festividades comemorativas do sesquicentenário de Fortaleza e fazia parte da filmoteca do produtor cearense Paulo Sales, que o havia adquirido no Rio de Janeiro.

A Praça

A Praça do Ferreira é a mais conhecida e frequentada da cidade, sendo considerada por muitos como o coração de Fortaleza. A praça também foi palco de importantes episódios da história da cidade. Por mais de um século, seus bares, cinemas, os antigos cafés ou seus bancos foram ponto de encontro do povo cearense. Por ela passaram os mais ilustres personagens da história de Fortaleza, como Quintino Cunha, o próprio Boticário Ferreira, os membros da Padaria Espiritual, entre muitos outros.

Praça do Ferreira em 1920, onde podemos ver, ao fundo, o prédio do Cine Majestic

A Praça do Ferreira é rodeada ainda hoje, por várias construções que marcaram época em Fortaleza, como o Palacete Ceará, a Farmácia Oswaldo Cruz, a lanchonete Leão do Sul, o Cine São Luiz, o Edifício Sudamérica, e os hotéis Savanah e Excelsior Hotel (primeiro grande hotel de Fortaleza, construído onde ficava o famoso Café Riche).

Até meados do século XIX, a Praça do Ferreira era só um areial. Um areial com um cacimbão no centro, algumas mongubeiras, pés de castanhola. Nos cantos do terreno, marcos de pedra para amarrar jumentos dos cargueiros ambulantes que vinham do interior. Nesse tempo, o areial era chamado de "Feira Nova" por abrigar uma feira movimentada.

Lado noroeste da Praça, onde vemos a esquina da Rua Guilherme Rocha com Major Facundo. O sobrado de cor amarelado situado na esquina, foi a primeira construção de três pavimentos de Fortaleza, ficando onde posteriormente seria construído o Excelsior Hotel. (Cartão colorizado de 1925)

Em 1842, a Praça, então denominada de Dom Pedro II, foi construída por Antônio Rodrigues Ferreira (Boticário Ferreira), então presidente da Câmara. Ele instalou uma botica na Rua da Palma, hoje Rua Major Facundo. Sua botica, conhecida "Botica do Ferreira", ficou bastante conhecida, chegando a ser ponto de referencia e ponto de encontro na praça. O Ferreira e sua botica tornaram-se tão célebres, que por volta de 1871, a praça passou a ser chamada de "Praça do Ferreira".

Em 1886, quando a praça ainda era um areial com um cacimbão no meio, foi construído o primeiro café-quiosque da praça: Café Java. Depois chegara os outros três: Iracema, Café do Comércio e Café Elegante - um em cada canto da Praça. Um quinto quiosque servia de posto de fiscalização da companhia de luz.

No centro do passeio foi colocado um catavento sobre a cacimba gradeada, com uma imensa caixa d’água pintada de roxo. O centro onde ficava o jardim era cercado por grades de ferro. Havia 4 fileiras de bancos de taliscas verdes.

Praça do Ferreira em registro de 1930, com visão para o Palacete Ceará, que resiste até os dias de hoje

Em 1902, o intendente Guilherme Rocha mandou fechar o cacimbão e em seu lugar, fez um jardim, o "Jardim 7 de Setembro". Em 1920 o prefeito Godofredo Maciel ladrilhou o areial, demoliu os quatro cafés, e derrubou o famoso "Cajueiro da Potoca" - onde se fazia anualmente a eleição do maior mentiroso de Fortaleza. O mesmo Godofredo Maciel, em 1925 construiu um coreto no centro da praça.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Quietude a agitação

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Fortaleza continuou a desenvolver-se econômica e politicamente, ao contrário do resto do estado. Ocorre nas primeiras décadas do século XX um afluxo de imigrantes, embora pequeno em relação ao de outras regiões, consistindo principalmente de portugueses e sírio-libaneses. Os descendentes destes, em particular, ganharam grande destaque no comércio, como mascates, e, futuramente, na política cearenses.

Em 1913, por iniciativa da Associação dos Jornalistas Cearenses, foi inaugurada na praça Caio Prado (Praça da Sé) uma estátua de D. Pedro II. O monumento, fundido em bronze em Paris, por H. Gonot, foi uma criação do artista Auguste Maillard. A Praça é provavelmente a mais antiga da cidade e está localizada em frente à Catedral Motropolitana, entre as ruas Castro e Silva e Doutor João Moreira.

Antiga Praça do Conselho, passou a chamar-se Praça do Largo da Matriz em 1854. Em 1861, o novo nome seria Praça da Sé. A denominação durou por todo o Império. Em 1889 o nome passou a ser Praça Caio Prado. (Foto de 1915)

O sistema de transporte urbano – o bonde elétrico – foi posto em uso em 11 de dezembro de 1913, sendo que os velhos bondes, de tração animal, continuariam a frequentar a paisagem da cidade durante mais alguns anos. Os primeiros automóveis circularam na cidade em 1910 e a Praça do Ferreira era ponto de estacionamento de bondes e de carros de aluguel, concentrando intenso movimento. É a época da fundação do Centro Médico (1913), e da Faculdade de Farmácia e Odontologia (1916). É também nesse período que surge a Escola de Agronomia (1918) e o Colégio Militar do Ceará (1919).

Na observação de Sebastião Rogério Ponte, “a multiplicação de bondes (eletrificados em 1913) e de automóveis (a partir de 1910) requereu maior extensão do serviço de calçamento, redimensionamento de praças e novo comportamento no trânsito de pedestres. Como em outras cidades brasileiras, exigia-se que os passageiros estivessem vestidos com decência: paletó, gravata e sapatos. Segundo depoimentos de pessoas que viveram na cidade a partir do século XX, grande parte da população, excetuando os muito pobres, usava cotidianamente paletó (alguns de camisa inglesa ou linho e muitos de tecidos mais rústicos), o que é verificável através das fotografias da época”.

Movimento na rua Major Facundo, ao lado da Praça do Ferreira

A iluminação pública fora ampliada para outras ruas da cidade, mas continuava a mesma da época de sua inauguração, isto é, a gás carbônico. Mas nas residências, já em 1913, o gás começava a ser substituído por eletricidade que, posteriormente, também era adotada no sistema de iluminação pública.

A Praça do Ferreira se consolida como principal polo econômico, cultural e político no centro de Fortaleza. Era o denominado “coração da cidade”. Na definição do professor José Borzacchiello da Silva, “o Centro não só espelhava Fortaleza em sua Magnitude, ele era a cidade, depositário único de perfis e imagens que construíram e reforçaram a ideia de centralidade”.

Movimento na esquina das ruas Guilherme Rocha com Major Facundo, na Praça do Ferreira em 1912, onde vemos em destaque o Café do Comércio

“Polo funcional da cidade, suas principais atividades pautavam-se na administração pública, nas atividades políticas e financeiras e de entretenimento. Com um movimento extraordinário, o Centro expressava sua capacidade de excepcional praça comercial, gerador e prestador de serviços de lazer e animação. Cinemas, templos, palácios e praças sempre apinhadas de gente como a do Ferreira com seus famosos cafés”.

Apesar do progresso já alcançado pela cidade, a população preservava muitos hábitos que remetiam a costumes próprios da pequena vila. É o que lembra Raimundo Girão:

Antiga Praça Marquês de Herval em 1911, hoje Praça José de Alencar. No começo do século havia imensos jardins e, no centro da praça, um grande coreto. Ao fundo vemos a Igreja do Patrocínio

“Às tardes frescas no lado da sombra, ou às primeiras horas da noite, as célebres rodas de calçada, genuinamente nordestinas, para animadas palestras ou partidas de gamão, sadias, cordiais, enchiam os passeios ou calçadas com um sem número de cadeiras. Mas, de ordinário, não resistiam ao toque de corneta das nove horas, vindo do quartel da polícia, na Praça do Patrocínio (Praça José de Alencar), como aviso convencional para o recolhimento ao leito ou à boa rede e, segundo a pilhéria, para a saída triunfal dos percevejos”.

No âmbito político, o Ceará continuava sob comando do velho oligarca Antônio Pinto Nogueira Acióli. Segundo Sebastião Rogério Ponte, "durante todo o período de vigência da oligarquia aciolina (1896-1912), a intendência da capital ficou a cargo do coronel Guilherme Rocha, considerado pela historiografia cearense um dos administradores municipais que mais fizeram pelo embelezamento e melhoramento da cidade: 'o aformoseamento fortalezense havia encontrado no intendente Guilherme César da Rocha o mentor persistente durante 20 anos (...). Homem de fino trato integrado na vida social elegante, procurava transformar velhos hábitos por via da modificação física do ambiente urbano".

Passeio Público (antiga Praça dos Mártires) em foto de 1918.

Revolta popular

Em 1912, numa conturbada e violenta campanha eleitoral no Ceará, foi lançada a candidatura de Franco Rabelo para o governo, enquanto Accioli apontava como seu candidato Domingos Carneiro. Em Fortaleza, houve uma passeata de crianças em favor de Franco Rabelo, a qual foi reprimida duramente pelas forças policiais, causando a morte de algumas crianças e ferindo outras tantas.

Barricadas contra o governador Nogueira Accioly em 1912

Em consequência, a população fortalezense se revoltou contra o governo, mergulhando a capital em verdadeiro estado de guerra civil durante três dias.

Vejamos o testemunho de Otacílio de Azevedo. “Participei da inesquecível passeata em repúdio aos atos vandálicos da polícia (...). Ao dobrar a Rua General Sampaio rumo à Praça do Ferreira, fomos atacados pela cavalaria. O povo reagiu: estavam todos armados e municiados. Das cornijas dos prédios partiam balas de todas as direções. Toda a província virou uma praça de guerra. O povo assaltou as casas de vendas de armas. Assisti ao arrombamento da Casa Villar. Era um verdadeiro delírio. Todos alimentados pelo mesmo espírito de revolta, de justiça e de vingança (...). “Era uma avalancha de homens, mulheres e até crianças que avançavam numa onda compacta, derrubando tudo à sua passagem, avançando sempre para frente, não importando os obstáculos. Vi um sujeito arrancar, sozinho, um combustor de luz carbônica da Praça do Ferreira! (...). “Três dias e três noites as balas sibilaram".

Destroços do quebra-quebra na Avenida Franco Rabelo, uma das alamedas da Praça Marquês de Herval (atual José de Alencar) em 24 de janeiro 1912

Nogueira Accioli teve, então, que renunciar ao governo cearense, tendo como garantia o direito de permanecer vivo e poder fugir do Estado. Franco Rabelo foi eleito para governar o Ceará logo em seguida, mas acabou sendo deposto por outra revolta, a Sedição de Juazeiro, entre 1913 e 1914.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Um novo momento

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No final do Século XIX Fortaleza consolida-se como centro urbano de importância regional e como capital do Estado, apesar da vicissitude das secas e do enorme êxodo rural. Em 1895, Antônio Bezerra descreve Fortaleza como uma cidade de 985.000 km² com 34 ruas no sentido Norte-Sul, 27 ruas no sentido nascente-poente e 14 praças. Nesse mesmo ano, de acordo com o professor Geraldo Nobre, “contando com 14 estabelecimentos de panificação e massas alimentícias, 9 tipografias e oficinas diversas, a capital cearense possuía, naquela ano de 1895, nada menos de 150 instalações industriais, embora na maioria de pequeno porte”.

Café do Comércio situado na Praça do Ferreira, na esquina das ruas Guilherme Rocha e Major Facundo. (Cartão colorizado do início do Século XX)

Os números do recenseamento de 1900 indicam que Fortaleza tinha exatos 48.369 habitantes, e chegaria ao final da década de 1910 como a sétima cidade em população do Brasil. Em 1911, segundo Divisão Administrativa, a capital do Ceará compunha-se dos distritos de Fortaleza e Patrocínio.

A capital melhora sensivelmente o seu aspecto urbano e passa a tomar medidas de higienização social e de saneamento ambiental, além de executar um plano de reformas urbanas com a implantação de jardins, cafés, coretos e monumentos, e a construção de edifícios seguindo padrões estéticos europeus. Verificam-se grandes inversões na área industrial e principalmente nos sistemas de transporte.

“Todavia, – lembra Raimundo Girão – outros problemas essenciais não encontravam solução, como o do abastecimento d’água e o da rede de esgotos. Continuava a cidade a suprir-se do precioso líquido, retirando-o em cacimbas escavadas nos quintais das casas e elevada por moinhos de vento a rodarem desesperadamente dia e noite. Pelo seu crescido número, às centenas, ofereciam esses cataventos sugestivo aspecto a quem observasse a cidade de qualquer ponto mais saliente”.

Vista da Igreja do Carmo em 1910. Ao fundo, pode-se ver os limites habitados a oeste da cidade e, à esquerda, a Avenida Duque de Caxias sem pavimentação. (postal colorizado à mão)

Com um crescimento acelerado, Fortaleza, por volta de 1910, exportava pelo porto do Mucuripe matérias-primas de origem vegetal e animal, cera de carnaúba, óleo de oiticica, mamona, babaçu e algodão, peles de animais silvestres e domésticos. Na via oposta, eram importados itens industrializados, máquinas, automóveis, tecidos de lã e linho, ferro, aço, medicamentos, carvão, chumbo e cimento. Também data desse período a construção dos primeiros prédios com mais de quatro andares.

Na virada do século o intendente de Fortaleza era o Coronel Guilherme Rocha (1892-1912). Para muitos historiadores, depois do boticário Ferreira, foi ele quem mais se empenhou na urbanização de Fortaleza, inaugurando em 1902, por exemplo, os jardim da Praça do Ferreira. Várias outras praças que eram tomadas de arbustos e capins também foram ajardinadas pelo novo intendente.

Início da Rua Major Facundo, na altura do Passeio Público

Em 21 de fevereiro de 1903 foi criada a Faculdade de Direito do Ceará, sendo a primeira instituição de ensino superior do Estado. A faculdade surgiu antes mesmo da própria Universidade Federal do Ceará, com o nome de "Academia Livre de Direito do Ceará". A reunião de fundação ocorreu na Associação Comercial do Ceará e nela foi aclamado primeiro diretor Antônio Pinto Nogueira Accioly.

O Curso começou a funcionar no andar superior do antigo prédio da Assembleia Legislativa, hoje Museu do Ceará, situado na Praça dos Leões. O prédio onde atualmente está localizada a Faculdade, situado à Rua Meton de Alencar, de frente para a Praça Clóvis Beviláqua, foi inaugurado em 12 de março de 1938.

Praça do Palácio em cartão clorizado de 1910. À direita, a estátua do General Tibúrcio, cearense herói da guerra do Paraguai que, posteiormente, daria nome à própria Praça que, com o tempo. ficaria conhecida apenas como Praça dos Leões

Conforme depoimento do professor Álvaro Costa, "foi a criação da Faculdade de Direito instrumento poderoso de democratização da cultura superior, pondo ao alcance de maior número a educação universitária adstrita antes ou a famílias abastadas, que podiam custear os seus filhos em outras terras, ou àqueles espíritos superiores, pobres de dinheiro, mas ricos de vontade, que se aventuravam aos centros adiantados em busca de saber, a troco de incertezas e amarguras".

No âmbito do espaço urbano formal, as novidades também eram notáveis. Segundo o pesquisador Sebastião Rogério Ponte, “paralelas às obras erguidas pelos poderes públicos e pelo capital, as camadas afluentes fizeram surgir novas lojas, hotéis, clubes, mansões e chácaras. Prevaleceu nestas construções o ecletismo arquitetônico, estilo de arquitetura dominante na Europa desde meados do século XIX e então em voga no Brasil republicano. Tais edificações e a arquitetura eclética que as acompanhava, na apreciação de um conspícuo arquiteto de nossos dias, conferiam ao conjunto urbano de Fortaleza uma notável unidade Formal, gradativamente destruída depois de 1930”.

A foto data de 1910. É o palacete Guarani, construído e inaugurado em 20 de dezembro de 1908, funcionando nos altos a Associação Comercial do Ceará e no térreo o London Bank a partir de 1910. O prédio fica na rua Barão do Rio Branco com Senador Alencar, mas foi totalmente descaracterizado.

Exemplo dessa arquitetura é o prédio do Palacete Guarani, na esquina das ruas Senador Alencar com Barão do Rio Branco. Antes, segundo o Portal da História do Ceará, existia no local "o matadouro de Fortaleza, cujo caminho para o mercado era chamado de rua das Hortas (Rua Senador Alencar). Depois, foi construído no local o sobrado do coronel José Eustáquio Vieira, onde residiu o comendador Luiz Ribeiro da Cunha, seu genro, até incendiar-se em 1902. O terreno foi então adquirido pelo Barão de Camocim que trouxe de Paris uma planta e fez construir o Palacete Guarani. Como o Barão de Camocim era o presidente da Associação Comercial, a mesma passou a funcionar ali, nos altos. Em 1925 o London Bank deixa o prédio e o Banco dos lmportadores passou a funcionar na parte térrea e o Clube dos Diários nos altos. Lá também esteve a Boate Guarani".

Em 1905, no dia 24 de junho, inaugurava-se a sede própria da associação de nome de Fênix Caixeiral, fundada por um grupo de empregados do comércio de Fortaleza. Ficava na praça José de Alencar, na esquina das Ruas General Sampaio com Guilherme Rocha. Durante várias décadas, a então "Phenix Caixeiral" desempenhou papel relevante na sociedade. Congregava gente como contadores, despachantes de alfândegas, leiloeiros, corretores, empregados de bancos e uma quase infinidade de classes trabalhadoras.
Sede da antiga Fênix Caixeiral na esquina das ruas Guilherme Rocha e General Sampaio, em 1910 (Postal colorizado à mão)

Em 1915 foi inaugurada a segunda sede, desta feita na esquina da mesma Rua Guilherme Rocha com a Rua 24 de Maio. Nos dois prédios funcionavam a Escola de Comércio (a primeira de Fortaleza a ter aulas à noite), o Cine-Teatro Fênix, a Biblioteca Social, o Pátio de Diversões, o Campo de Cultura física, Assistência Médica, Dentária e Judiciária, o Tiro de Guerra, o Dispensário Profilático e, a partir de 1926, o Banco de Crédito Caixeiral. Durante a revolução de 1930, manteve a Guarda Cívica Fenista.

A primeira década do século chegava ao fim trazendo algumas novidades que foram incorporadas ao cotidiano da cidade e passariam a fazer parte do universo cultural do povo de Fortaleza. Em 1909, foi inaugurado o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome. No ano seguinte foi a vez do Theatro José de Alencar que, inaugurado oficialmente em 17 de junho, tornou-se o principal espaço cultural da cidade. Nessa época, Julio Pinto abriu o Cassino Cearense, na Rua Major Facundo. Mas foi a chegada do primeiro automóvel que, literalmente, assustou os fortalezenses. É o que conta Marciano Lopes:
Igreja do Rosário e vista parcial da Praça dos Leões em registro de 1908. A data, porém, talvez não esteja correta, uma vez que na foto aparece um automóvel. Mas Fortaleza, segundo sabemos, só veio a testemunhar o primeiro carro em 1909. Fica, portanto, a dúvida

"Na madrugada do dia 28 de março de 1909, a pacata cidade de Fortaleza acordou sobressaltada. Por volta das 22 horas um barulho desconhecido se fazia ouvir e crescia, perturbando as silenciosas ruas de pedras toscas. Das janelas, olhares curiosos, perplexos, face a uma visão jamais imaginada ali. Um veículo estranho, tão pertinho de todos a se mover lentamente, conduzindo alguns cavalheiros elegantes e respeitados da época. Clóvis Meton, Dr. Meton de Alencar, Dr. Gadelha e Júlio Pinto inauguravam, visivelmente emocionados, o primeiro carro a motor de Fortaleza, o “rambler”.

Neste cartão postal colorizado à mão e editado em 1909, vemos a Rua Formosa, (Atual Barão do Rio Branco) no sentido Passeio Público, como um retrato da cidade antes do aparecimento do primeiro automóvel

Duas Fortalezas

O novo século chega e com ele a certeza de que o progresso experimentado pela cidade não será em benefício de todos. A ampliação dos bolsões de pobreza nos arredores de Fortaleza já era uma realidade, principalmente em virtude do flagelo das secas e do êxodo rural que anualmente expulsava milhares de trabalhadores rurais do campo rumo aos centros urbanos. Nessa época, Fortaleza já era o principal destino dos desvalidos.

Trecho da antiga Praia Formosa onde hoje situa-se o Marina Park. Aqui podemos ver a linha férrea que seguia para o porto e dividia, de um lado um aglomerado de habitações precárias e, de outro, a zona urbana e póspera da cidade

Nas palavras de Frederico de Castro Neves, "a necessidade que começa a se formar nesse instante é de manter os retirantes fora de um limite de contato, longe dos espaços públicos frequentados principalmente pelas elites aburguesadas da capital.(...) cada vez mais esta necessidade se manisfestará, alcançando as atitudes individuais e coletivas, isoladas ou institucionalizadas. (...).Controlar os movimentos dos retirantes, impedir sua livre circulação pelas cidades e até por todo o território do estado, vai ser a principal medida a ser implementada pelos governos provinciais ou estaduais desde então".

Por outro lado, a cidade via cada vez mais fortalecida a elite formada principalmente pelos grandes comerciantes locais e seus agregados, que se sentiam incomodados em ter que “compartilhar” o “seu” espaço urbano com gente de “classe inferior”. Foi a partir daí que os mais ricos começaram a se afastar do centro da cidade, passando a ocupar lugares então considerados mais distantes como o Benfica, Jacarecanga, Praia de Iracema e, posteriormente, Aldeota.

O presidente da província do Ceará, Caio Prado (no centro do grupo) e seus amigos na chácara do livreiro Guálter Silva, no Benfica. A foto é de 1888 ou 1889

Entre os anos de 1888 e 1889, o próprio presidente da Província do Ceará, Caio Prado, foi um dos principais incentivadores da migração de cearenses para outras regiões do país.

Noticiais de jornais da época davam conta que em apenas dois vapores da Companhia Brasileira, embarcaram 2.720 emigrantes; outro jornal revelava que no período entre 19 de setembro a 12 de janeiro do ano seguinte, deixaram a província 5641 pessoas com destino ao sudeste e 2421 cearenses foram para o Norte.

Avenida Caio Prado no Passeio Público, que era frequentada pela elite da cidade

A desigualdade e a divisão social estavam presentes até mesmo naquelas obras construídas para serem espaços públicos de lazer e recreação. É o que diz Sebastião Rogério Ponte, quando relata que o Passeio Público foi edificado para ser “lugar de recreação para todos ... mas separadamente”. Elaborado em três planos, a área central era frequentada apenas pelas elites, pelas pessoas de classe, cheias do dinheiro, ao passo que os outros dois planos eram reservados para as classes médias e populares. Obviamente, não existia nenhuma determinação oficial, dividindo o Passeio por tipos de frequentadores; a separação ocorria naturalmente, como assim acontecia nos cafés da Praça do Ferreira. Lá ia todo tipo de gente. Mas nem todo mundo era bem-visto.